Como superar a luxúria e a tentação

Quando deixamos de praticar nossos hábitos e somos capazes de permanecer sexualmente sóbrios por algum tempo, descobrimos que, embora não estejamos exercitando nossa compulsão, a obsessão ainda está conosco, apesar de parecer que desapareceu por um tempo. A luxúria, como vimos, assume muitos disfarces, que começamos a reconhecer na sobriedade, com o passar do tempo. Para uma pessoa, a luxúria pode consistir de desejar alguém. Para outra, pode ser a obsessão de que outros a desejem. Para outra ainda, a luxúria pode manifestar-se como uma necessidade sexual ou emocional desesperada por alguém. Em qualquer caso, o verdadeiro problema é a disposição interna do coração, e o trabalho de recuperação dá-se com a mudança de atitudes e com a vitória progressiva sobre a luxúria.

A luxúria cede ao funcionamento lento e paciente do programa apenas em companhia de outros que estão fazendo o mesmo. Essa é uma das razões pelas quais precisamos constantemente da fraternidade da sobriedade. As recompensas são infinitas, dando-nos a verdadeira liberdade que sempre quisemos.

No texto a seguir, um membro conta como superou a obsessão pela luxúria. Para muitos, essas sugestões provaram ser úteis para manter a sobriedade e vencer a luxúria e a tentação.

Como venci minha obsessão pela luxúria

Como consegui? Não consegui. Uma mulher de AA me disse, depois de falar em uma reunião, citando o quinto capítulo de Alcoólicos Anônimos, que "Deus era capaz de fazê-lo e o faria, se eu o buscasse". E foi assim que consegui. Deixando que Deus agisse, já que eu não conseguia. Mas Deus era capaz de fazê-lo e o faria -- e o fez. Mas eu tive de ir a reuniões para aprender esse tipo de coisa. "Reuniões, reuniões, reuniões, reuniões, reuniões ..." Foi o que me disseram. "Continue trazendo o corpo." "Trabalhe os passos, trabalhe os passos, trabalhe os passos, trabalhe os passos, trabalhe os passos." Vá às reuniões e trabalhe os Passos. Foi assim que consegui. Foi assim que aprendi a deixar "entrar a graça de Deus para expulsar a obsessão". Veja a seguir o que funcionou para mim:

  1. Deixar de praticar a compulsão. Interrompi completamente todas as atividades sexuais, inclusive sexo comigo mesmo e relacionamentos extraconjugais. A obsessão pela luxúria não pode diminuir se eu continuo a praticar atos de luxúria.

  2. Parar de alimentar a obsessão. Isso significava eliminar, dentro da minha esfera de controle, todos os materiais impressos e visuais, bem como outros símbolos da minha tirania.  Tive de parar de alimentar minha luxúria com os olhos, por meio da televisão, filmes e música; bem como usando e escutando a linguagem da luxúria.

    Eu também tive de deixar de viver sempre e somente dentro da minha cabeça. Esse é um dos grandes benefícios adicionais de ir a muitas reuniões. A maioria de nós sexólicos realmente vive dentro da própria cabeça. Raramente estamos no mundo real.

  3. Participar da fraternidade do programa. Não conheço quem possa ficar sóbrio e livre da obsessão da luxúria sem esse companheirismo. Eu não consigo. É na comunhão que está a ação, a mágica, a Conexão, o sentimento de pertencimento.

    No começo, tudo que eu conseguia fazer era participar das reuniões. Então segui a sugestão de participar da mecânica das reuniões: arrumar as cadeiras, limpar, prestar serviço como coordenador da literatura, tesoureiro ou secretário. Participar fez com que me sentisse parte do todo, em vez de separado de todos -- meu eterno problema. Depois, fui capaz de sair para tomar café, sair com companheiros individualmente, e começar o doloroso mas necessário processo de crescer, relacionar-me com outros e abrir-me fora das reuniões.

  4. Admitir impotência. No começo, tudo que eu conseguia fazer quando a compulsão me atacava era gritar: "Não tenho poder, por favor, me ajude." Às vezes centenas de vezes por dia. Impotência era a palavra mais bonita do mundo para mim naquela época, quando passei a vivenciar o Primeiro Passo em profundidade. Ainda é. Mais tarde, descobriria que eu era realmente impotente perante mim.

    Antes, quanto mais eu lutava contra a luxúria, mais a luxúria lutava contra mim. Toda a minha força de vontade parecia fortalecer a luxúria em vez de mantê-la sob controle. Ler o Primeiro Passo do livro Os Doze Passos e as Doze Tradições de A.A. ajudou-me a ver que minha impotência era o "leito de rocha firme sobre o qual poderão ser construídas vidas felizes e úteis" (p. 19, edição brasileira de abril de 2016). Finalmente, parei de tentar. Somente admitindo o poder da luxúria sobre mim perante outros na irmandade, recebi poder sobre a minha luxúria.

  5. Rendição. Sem rendição, a mera admissão de impotência não nos conecta com nosso Poder Superior. No começo, para mim, era rendição ao grupo onde comecei a participar das reuniões. Isso significava simplesmente ir às reuniões e ser tão honesto, aberto e disposto quanto eu conseguia ser. Foi assim que comecei a vivenciar o Segundo Passo e ter esperança de que um Poder superior a mim mesmo poderia devolver-me à sanidade. Foi o que preparou o caminho para a rendição do Terceiro Passo mais tarde, quando me renderia a Deus, conforme eu O entendia.

    Em relação à minha luxúria, eu sabia exatamente o que significava a entrega e o que eu tinha de fazer. Cada vez que eu era tentado por dentro ou por fora, eu dizia: "Renuncio ao direito de cobiçar essa pessoa com luxúria. Liberte-me da luxúria, por favor".  E como está escrito: "Deus era capaz de fazê-lo e o faria ..." e o fez. Posso ter sentido algum desconforto ou medo, e posso ter repetido a rendição várias vezes, mas funcionou. A princípio, fiquei com medo, mas me mantive sóbrio e, pouco a pouco, foi ficando mais fácil, uma tentação de cada vez.

  6. Trazer para fora o que está dentro. Quando comecei a ver que, aparentemente, eu nunca seria curado da luxúria, tive de incorporar outros passos para me ajudar. Os passos quatro e cinco abriram a porta para que eu pudesse enxergar-me de forma crítica. Essa foi provavelmente a mudança de atitude mais importante na minha recuperação inicial.

    Mas com a luxúria, eu tive que continuar fazendo mini-inventários, conforme sugerido nos passos cinco e dez. Toda vez que eu sentia que alguma experiência, imagem, lembrança ou pensamento estavam controlando-me, como costumava acontecer com frequência, eu os revelava, falando sobre eles com outra pessoa do programa. Expunha-os ao ar e à luz do sol. A luxúria odeia a luz e dela foge; a luxúria ama os recessos secretos do meu ser. E uma vez que eu permita que aí se aloje, a luxúria se reproduz como um fungo: torna-se o pé-de-atleta da alma. Mas, assim que a exponho à luz, revelando-a a outro sexólico em recuperação, o poder que ela tem sobre mim se desfaz. A luz mata a luxúria. Fiz isso com casos concretos, não com generalidades. Às vezes isso significava abusar do tempo de uma pessoa, mas me desintoxicava e me mantinha sóbrio. Todas as vezes que conversei com alguém em atitude de rendição, o poder que aquela lembrança ou experiência exercia sobre mim foi quebrado. Outra nova e poderosa descoberta.